Em destaque

Anti-Tech Revolution: Why and How

O mais recente livro de Theodore John (Ted) Kaczynski --  Anti-Tech Revolution: Why and How  --*  foi apresentado aos leitores nest...

11 de dezembro de 2014

O Papagaio que Pedia Liberdade

   Esta é a história de um papagaio muito contraditório. Havia já uns tantos anos que esse papagaio vivia em uma gaiola muito cômoda, que o seu proprietário, um tranquilo ancião ao qual o animal fazia companhia, mantinha limpa e com a água e a comida necessárias.

   Certo dia, o ancião convidou um amigo seu à sua casa, para desfrutar de um saboroso chá do Sri Lanka.

   Os dois homens se puseram no salão, sentados bem perto de uma janela, ao lado da qual se encontrava o papagaio em sua gaiola. Logo, quando estavam os dois homens bem acomodados, a tomar o chá, o papagaio começou a berrar, insistentemente:

-- Liberdade, liberdade, liberdade!

   Não parava de pedir pela liberdade... Durante todo o tempo em que o convidado esteve na casa, o animal não deixou de reclamar por liberdade de uma maneira angustiante. Tão angustiante era o seu pedido que o convidado sentiu-se apiedado, e nem mesmo pode terminar de saborear comodamente a sua xícara de chá, decidindo por encerrar a sua visita. Estava ele já saindo porta afora, porém continuava ouvindo os veementes gritos do papagaio:

-- Liberdade, liberdade, liberdade!

   Dois dias se passaram. Aquele que fora o convidado não podia deixar de sentir compaixão pelo papagaio. Mas era tanto o quanto o perturbava o estado daquele pobre animal, que decidiu então que seria necessário pô-lo em liberdade. E ele tramou um plano. Sabia quando o ancião deixava sua casa para ir às compras -- ele ia então se aproveitar dessa ausência e libertar o pobre papagaio de sua triste gaiola.

   E assim o fez. Um dia depois, na hora adequada, o tal convidado pôs-se por perto da casa do ancião, e, quando o viu sair, correu até sua casa, abriu a porta com uma gazua e entrou no salão -- onde o papagaio continuava berrando:

-- Liberdade, liberdade, liberdade!

   Isso partia o coração daquele que fora o convidado. Quem não sentiria pena do animalzinho? De pronto, ele se aproximou da gaiola e abriu a sua portinhola. Então o papagaio, apavorado, pulou para o outro lado da gaiola e, agarrando as barras com seu bico e unhas, bem se recusou a dela sair.

   O convidado foi se afastando, confuso e apiedado. Apesar de ter a portinhola aberta, o papagaio permanecia no fundo da gaiola, já se aquietando; de quando em vez, porém, continuava resmungando:

-- Liberdade, liberdade, liberdade...


Assim como esse papagaio, são muitos os seres humanos que dizem querer a liberdade -- os quais, todavia, acostumaram-se de tal maneira à sua gaiola que, na realidade, têm medo de abandoná-la...

Conto de origem desconhecida
(Em uma versão das Edições Natura naturans)

10 de dezembro de 2014

Esquerdismo: qual é o problema? -- primeira parte


Título do original em espanhol:

* A Revista Renuncia é formada pela edição de artigos, resenhas e outras matérias específicas publicadas no blog de Ediciones Isumatag.

Mesmo que, hoje em dia, o termo "Esquerda" seja utilizado com muita frequência nas discussões sobre política, o termo "Esquerdismo" é utilizado apenas ocasionalmente. Os dois termos, frequentemente, são usados sem que se saiba claramente a que se referem. Assim, em muitas ocasiões, pode-se lançar um questionamento sobre alguma organização ou alguma pessoa ser ou não de esquerda. Além da ambiguidade na utilização desses termos, ocorre que, de acordo com os critérios que sejam usados, alguém poderá ser de esquerda algumas vezes, e outras não. E para agregar mais confusão a tal assunto, há pessoas de esquerda que dizem que não são de esquerda.

Por outro lado, em uma sociedade de massas, as questões políticas têm de ser tratadas em um nível simples o bastante para serem compreendidas por toda a população (ou por sua maioria). Disso decorre que assuntos complexos são simplificados a tal ponto que os representantes políticos parecem simples manipuladores em busca do benefício de seu bando. Por isso, nessas condições, uma análise crítica que afete mais a um bando que a outro será sempre mal interpretada por alguma das partes, para usá-la em seu favor no jogo Direita/Esquerda – muito embora não fosse essa a intenção de tal análise. Analisar o esquerdismo não implica defender a Direita política, ainda que alguns encarem isso dessa forma. O enfoque deste artigo não seguirá essa linha, pois se manterá dentro de certas coordenadas totalmente distintas e distanciadas das perspectivas dicotômicas da política convencional.

Este artigo irá se focar mais nos conceitos do que nos termos linguísticos empregados para designá-los. É uma questão de não se perder tempo, nem fazê-lo perder o leitor.

Ser de Esquerda e Ser Esquerdista.
Para se começar, convém esclarecermos o que esses conceitos significam neste artigo e, desde logo, fixarmos uma ideia do que se pretende dizer com cada termo ou com o rótulo aplicado a cada conceito. Assim, pois, o que é ser de esquerda? Resumidamente, pode-se dizer que é acreditar que a sociedade deve organizar-se para cuidar igualmente de todas as pessoas, assegurar-lhes um mínimo de bem estar e garantir-lhes que algumas de suas necessidades sejam satisfeitas. Consequentemente, os ideais que uma pessoa de esquerda geralmente assume são a igualdade, a solidariedade para além daqueles que lhe são afins, e a felicidade. Claro, esses ideais podem ser entendidos das mais variadas maneiras; a depender de a quem se deseja aplicá-los, vale dizer, da escala em que se deseja implantá-los (regional, nacional, mundial, universal), teremos uma ou outra corrente de esquerda. E o mesmo vale para as distintas interpretações de "igualdade" ou "felicidade". A Esquerda se caracteriza por uma grande pluralidade de correntes. Talvez mesmo se possa dar o caso em que algumas correntes, inevitavelmente, se ponham em confronto (ou, por vezes, pode parecer assim). Mencionamos antes que havia pessoas de esquerda que negam fazer parte da Esquerda; um exemplo disso é a grande maioria dos anarquistas: eles têm valores de esquerda, mas afirmam não fazer parte dela.

Por outro lado, o que é ser esquerdista? Aqui, o ser esquerdista não está sendo considerado como uma sinonímia para o ser de esquerda. Eis a razão: para nós, é grande o interesse em distinguirmos entre os ideais e as atitudes psicológicas (e o comportamento a que estas induzem), porque isso assinala nuances importantes que não deveriam passar despercebidas. Ainda que não haja um traço psicológico definidor de uma pessoa esquerdista, há sim uma série de traços psicológicos que ocorrem com notável frequência entre as pessoas esquerdistas, de modo que possam ser tomados como indicadores bastante confiáveis. Não que possa haver nisso uma completa confiabilidade, porque o comportamento humano é muito versátil e pode ser causado por diversos motivos. Por exemplo, enquanto esses traços conduzem uma pessoa a ser esquerdista, outra pessoa poderá chegar a sê-lo simplesmente por imitar seus amigos (uma pessoa dessas que, simplesmente, “vai com as outras...”).

Considerado como uma categoria de tipo, o esquerdista se caracteriza por manifestar certas atitudes psicológicas concretas. Se aqui usamos o termo esquerdista, que compartilha a mesma raiz semântica de Esquerda, isso é porque a maioria das pessoas de esquerda também apresentam essas atitudes, embora não sejam comuns a todas elas. Ou seja, ser de esquerda e ser esquerdista caracteriza-se de tal modo que, frequentemente, são formas que surgem associadas. A respeito da definição de esquerdista, para a qual o que conta é a atitude psicológica, existem duas abordagens a se considerar. Uma delas, a de como uma pessoa desenvolve a sua vida e, a segunda, como a sociedade a afeta.

Na atualidade, as pessoas que vivem na sociedade tecnoindustrial estão enfrentando a situação da ausência de metas significativas em suas vidas. Quando ouvimos tanto falatório acerca de sentimento de vazio, de mal estar psicológico, de depressão e de outros problemas psicológicos, resta inevitável perguntar o que está acontecendo. Há que se ter em mente que essa sociedade tem permitido às pessoas realizar uma variedade de atividades que nunca antes os seres humanos tinham realizado. E, mesmo assim, há pessoas que sentem as suas vidas vazias – ou até mesmo algo menos que inúteis. É bem possível que a peça que completa esse quebra-cabeças esteja na forma como a sociedade obriga as pessoas a viver, ao imiscuir-se nos aspectos importantes da vida humana. Os seres humanos, por natureza, buscam alcançar alguns objetivos vitais empregando certa quantidade de esforço e, em maior ou menor grau, à sua maneira – vale dizer, de modo autônomo. Tentar alcançar tal categoria de objetivos (objetivos que são importantes para sua existência, como conseguir alimento, um lugar no qual viver ou um parceiro sexual) em se esforçando e se sentindo partícipe dessa realização, é isso o que dá o necessário incentivo para se viver; de fato, para muitos, esse é o tempero da vida. Mas acontece que, nessa sociedade, ou bem os objetivos vitais significativos estão assegurados com um mínimo de esforço, ou bem são alcançados seguindo-se um processo excessivamente pautado por regulações e normas de todo tipo. (Em alguns casos, alguns desses objetivos não são imediatamente acessíveis.) O leitor terá que desculpar a generalização; seguramente, nem todos vivem dessa maneira, porém, o certo é que uma maioria, nessa sociedade, assim o faz. É desse modo que a pessoa comum é obrigada a levar a sua vida: de um modo insatisfatório – isso em relação ao processo antes descrito, que alguns denominam “processo de poder” ou “processo de autonomia”. Diante dessa insatisfação, busca-se todo tipo de atividades que entretenham, que deem sentido à vida, que produzam o que essa vida nega a dar. E assim, as pessoas são capazes de qualquer coisa para escapar ao aborrecimento, ao tédio; ora, em geral, podem chegar a fazer qualquer coisa para conseguir algo de significativo em sua vida, mesmo que não cheguem a sequer saber bem o que procuram.

O segundo enfoque trata do modo como a sociedade influencia e condiciona as pessoas. Desde há algum tempo, a sociedade vem aumentando a sua capacidade de influenciar os indivíduos. Diversas instituições têm a tarefa de levar as pessoas a se comportarem de um modo determinado para que participem de maneira maximizada do funcionamento da sociedade tecnoindustrial. Ou seja, são responsáveis pela socialização dos indivíduos para que estes possam realizar o melhor possível as tarefas que a sociedade, como um sistema, “necessita” que sejam realizadas. Essas instituições têm alcançado um grande controle sobre o que as pessoas podem chegar a pensar e a fazer. Em alguns casos, as pessoas chegam a assimilar, nas profundezas do seu ser, aquilo que a sociedade lhes tem ensinado”. Os valores da sociedade ficam, assim, bem inculcados pelo processo de socialização.

Pois bem, tendo-se tudo isso em conta, chegamos ao fato de que uma pessoa esquerdista pode ser caracterizada por um alto grau de socialização, ou seja, que tem profundamente assumidos os valores da sociedade (igualdade, solidariedade em grande escala, etc.). E dado que sua vida seria insatisfatória em relação ao processo de poder, ou seja, que não teria propósitos significativos pelos quais se esforçar e de uma maneira que pudesse considerar como sua, aí então essa pessoa usaria a política como um campo no qual buscar algo para obinubilar sua insatisfação. O resultado, no mais das vezes, costuma ser o de se usar os valores da sociedade para criticar a própria sociedade. Isso significa criticar a sociedade por seu mau funcionamento, significa buscar contradições da sociedade entre seus valores declarados e o seu funcionamento, significa manter uma luta política que, no fundo, trata de melhorar o funcionamento da sociedade.

Finalmente, sob este enfoque, o esquerdismo seria para a Esquerda o que o esquerdista é para o ser de esquerda. Não é completamente o mesmo – porém é quase. O esquerdismo não é apenas ideologia (um sistema de ideias de esquerda, no mais), conquanto se caracterize também por atitudes psicológicas que o inclinam em direção a essas ideias. Já há décadas, a tendência do esquerdismo é de ser o componente social de maior preponderância, quanto à ideologia e quanto às atividades. Se poderia dizer que a Direita, todavia, tem ainda grande força e relevância social, porém, como já foi apontado por algum comentador, já há muito a Direita está "jogando" um jogo marcado pelo esquerdismo. Os temas da agenda política atual são, em sua maioria, temas estabelecidos pela Esquerda. A Direita está na defensiva e, ao menos ideologicamente, ultrapassada. Alguns exemplos desses temas são o casamento entre homossexuais, o aborto, os serviços sociais, a igualdade de gêneros, etc. A rapidez com que se produziu essa transformação é mais um sinal das mudanças vertiginosas que estão ocorrendo na sociedade tecnoindustrial (crescimento populacional, concentração em grandes centros de população, desenvolvimento de todos os tipos de infraestruturas e tecnologias, as crescentes tentativas de ingerência sobre a natureza, etc.). Essas mudanças parecem que não irão se deter nas próximas décadas, e ameaçam a liberdade humana e a Natureza selvagem de uma maneira nunca antes vista.

A essa definição de esquerdista se poderia objetar que não é possível entrar na cabeça das pessoas, e saber, então, o que estas pensam e o que as guia. De início, é um tema difícil, com bastantes dificuldades empíricas. Entretanto, depois de se haver observado o esquerdismo durante anos – inclusive tendo dele participado –, sim, atrevo-me a descrever a psicologia que está por detrás de padrões de conduta recorrentes, que têm ocorrido em diferentes lugares e momentos, nas últimas décadas. Existe um vínculo entre a psicologia esquerdista e a ideologia de esquerda, de modo que, em diferentes lugares e momentos em que aparecem determinadas atitudes psicológicas, costumam ocorrer algumas atividades políticas concretas. Os seus tons, serão quaisquer que sejam; contudo, haverá uma correlação entre um fenômeno e outro. Não reconhecê-la, certamente, significará ignorar um dos problemas mais característicos da sociedade tecnoindustrial. Ignoro se esse problema tem uma solução (tampouco digo que esse seja um problema prioritário), porém, se nem sequer for reconhecido, dificilmente se poderia solucioná-lo e, pior ainda, isso continuaria atravancando a resolução dos problemas verdadeiramente importantes.

Primeiro Problema: os fins políticos terminam por reforçar o desenvolvimento da sociedade.

O ideal de uma sociedade igualitária e solidária, na qual todos tivessem a chance de ser felizes, inspira o esquerdismo. Mas esses ideais, esses fins políticos cumprem, inconscientemente ou não, um papel no presente. E não é exatamente o de trazer a aproximação desse futuro “idílico”. De verdade, a sociedade tecnoindustrial é uma ferramenta muito eficaz para considerar e provar esses fins esquerdistas. Atentemo-nos bem para o fato do que fazem os valores como a igualdade e a solidariedade em grande escala – isto é, que aperfeiçoam o funcionamento dessa sociedade. Evitando que as pessoas sejam discriminadas por seu sexo, sua raça, sua etnia, sua nacionalidade, etc., consegue-se dispor da potencialidade de pessoas capacitadas para o desenvolvimento das tarefas necessárias dentro da sociedade atual. Se houver qualquer discriminação ou preconceito, essa potencialidade estará perdida, será desperdiçada. O mesmo vale para a solidariedade. O esquerdismo potencializa uma solidariedade extensiva, muitas vezes contrária à solidariedade natural que ocorre entre os seres humanos, aquela dirigida aos familiares, amigos e pessoas afins. O nepotismo (favorecimento de parentes), agora, é considerado mais como um problema do que como algo de positivo ou normal, uma vez que é um tratamento discriminatório, contrário aos critérios de eficiência ou mérito que deveriam prevalecer em um sistema social com um funcionamento otimizado. É necessário que a solidariedade vá além dos pequenos grupos e que se espalhe por toda a sociedade para que a cooperação entre as diferentes partes da sociedade funcione melhor. Em uma sociedade, como esta nossa, altamente especializada, uns dependem dos outros para viver, e se não cooperassem entre si isso seria uma catástrofe. Por isso, incentivá-los à cooperação pode melhorar o funcionamento da sociedade.

Como tem sido dito na Revista Renuncia, o desenvolvimento e o funcionamento da sociedade tecnoindustrial pressupõem o impedimento da liberdade humana e da autonomia do selvagem. Assim então o esquerdismo, sob sua aparência de boas intenções, de fato provoca uma piora da situação ao perseguir esses fins políticos. Sem dúvida, agravará os problemas psicológicos as pessoas já têm, ao conseguir assegurar a todos um bem estar ou uma felicidade básica. Como já foi dito antes, o que as pessoas necessitam é fazer coisas importantes para a sua vida, e por si mesmas, experimentar seu próprio valor em atividades significativas para a vida. E também, seguramente, uma solução para esses problemas psicológicos será buscada em novos desenvolvimentos tecnológicos, tais como novos medicamentos ou novas tecnologias médicas que venham a “solucionar” os problemas, vale dizer, eliminando apenas os seus sintomas, ou então, encobrindo-os.

30 de agosto de 2014

Um Conto Moderno

   Numa bela tarde, ao passar por perto de um rio, um próspero comerciante deparou-se com um pescador fumando tranquilamente o seu cigarrinho, recostado junto a uma canoa. Horrorizado com aquilo, o comerciante bruscamente parou e perguntou àquele pescador:

-- Por que você não está pescando?
-- Porque eu já pesquei bastante por hoje -- respondeu o pescador.
-- Mas por que você não sai para pescar mais peixes?
-- E o que eu ia fazer com mais peixes? -- perguntou o pescador.
-- Você venderia os peixes e ganharia dinheiro. Com o dinheiro, você poria um motor na sua canoa, e assim você iria mais rápido e mais longe, para pescar mais peixes. E aí, então, você teria dinheiro para comprar redes novas de nylon, e poderia pescar mais peixes ainda, e ganharia ainda mais dinheiro. E logo você teria dinheiro para ter outra canoa, e também mais redes. E poderia ficar rico, rico como eu.
-- E o que eu ia fazer, se ficasse assim, rico como você? -- perguntou o pescador.
-- Você poderia descansar e aproveitar a sua vida -- finalmente.
-- Mas afinal, o que você acha que eu estou fazendo agora? -- respondeu então o satisfeito pescador...

Conto de origem desconhecida
(Em uma versão das Edições Natura naturans)

3 de abril de 2014

A Sociedade Industrial e Seu Futuro -- resumos dos capítulos

Este manifesto -- A Sociedade Industrial e Seu Futuro --, que foi elaborado por Ted Kaczynski e está para ser publicado em português por uma iniciativa das Edições Natura naturans, é uma análise de como e por que o desenvolvimento tecnológico se converteu em uma gravíssima ameaça à liberdade individual e à Natureza selvagem. Eis, aqui, os seus capítulos brevemente resumidos, o que nos dá uma ideia da estrutura e do conteúdo dessa obra.

-- / -- / --

A Sociedade Industrial e Seu Futuro

Introdução
As consequências da Revolução Industrial têm desestabilizado a sociedade, têm feito com que a vida não tenha plenitude, têm submetido os seres humanos a indignidades, têm levado a um incremento do sofrimento psicológico (também do sofrimento físico, no Terceiro Mundo) e têm infligido severos danos ao mundo natural. O contínuo desenvolvimento da tecnologia irá piorar essa situação. Não há maneira de se reformar ou modificar o sistema de modo a impedi-lo de privar as pessoas de dignidade e autonomia. Nesse texto, advoga-se uma revolução contra o sistema industrial. Não será uma revolução política. O objetivo não será derrubar governos, e sim derrubar as bases econômicas e tecnológicas da sociedade atual. Nesse texto, se mantém a atenção somente sobre alguns dos efeitos negativos do sistema tecnoindustrial. Há pouco escrito nele acerca da degradação ambiental ou da destruição dos sertões selvagens, mesmo que em se considerando que tais temas sejam muito importantes.


A psicologia do esquerdismo moderno
Quase todo mundo concordará que vivemos em uma sociedade profundamente transtornada. Uma das manifestações mais amplas da loucura do mundo atual é o esquerdismo, de modo que uma discussão sobre a psicologia do esquerdismo pode servir como introdução à discussão dos problemas da sociedade moderna em geral.


Sentimentos de inferioridade
Quando alguém interpreta como depreciativo quase tudo o que se diga acerca dele (ou acerca de grupos com os quais se identifica), consideramos que sofre de sentimentos de inferioridade ou baixa autoestima. Tais sentimentos são decisivos na determinação da direção do esquerdismo moderno.


Sobressocialização
Diz-se que uma pessoa está bem socializada se ela acredita no código moral de sua sociedade, se ela o obedece e se adapta bem em ser um elemento funcional dessa sociedade. Poderia parecer absurdo dizer-se que muitos esquerdistas estão sobressocializados, posto que os esquerdistas são tomados comumente por rebeldes. No entanto, essa ideia pode ser defendida. Muitos esquerdistas não são tão rebeldes como parecem. Em geral, as metas dos esquerdistas da atualidade NÃO entram em conflito com a moralidade vigente. Ao contrário, a esquerda toma um princípio moral estabelecido, adota-o como próprio e, daí então, acusa a sociedade convencional de violar tal princípio. Exemplos: igualdade racial, igualdade de sexos, auxílio às pessoas pobres, paz em oposição à guerra, não violência em geral, liberdade de expressão, rejeição dos maus-tratos aos animais.

O processo de poder
Os seres humanos têm a necessidade (provavelmente de origem biológica) de experimentar o que chamaremos de processo de poder. Do processo de poder constam quatro elementos. Aos três mais claramente definidos vamos chamá-los de meta, esforço e consecução da meta. (Todo mundo necessita ter metas cuja consecução requeira esforço e necessita ter êxito em atingir ao menos algumas de suas metas.) O quarto elemento é mais difícil de definir, e talvez não seja necessário para todo mundo. Nesse testo é chamado de autonomia.

Atividades substitutivas
Quando as pessoas não têm de esforçar-se para satisfazer suas necessidades físicas, frequentemente impõem metas artificiais a si mesmas. Em muitos casos, então, perseguem essas metas com a mesma energia e o envolvimento emocional que, de outra maneira, teriam de mostrar ao tratar de satisfazer suas necessidades físicas. Para muitas, ou mesmo para a maioria das pessoas, as atividades substitutivas são menos satisfatórias que a persecução de metas autênticas. Um indício disso é o fato de que, em muitos ou na maioria dos casos, as pessoas que estão profundamente envolvidas em atividades substitutivas nunca ficam satisfeitas, nunca ficam tranquilas.

Autonomia
A maioria das pessoas necessita um certo grau de autonomia ao esforçar-se para alcançar suas metas. Seus esforços devem ser o resultado de sua própria iniciativa e devem estar sob sua própria direção e controle. Ainda assim, a maioria das pessoas não tem a necessidade de exercer tal iniciativa, direção e controle de modo exclusivamente individual. Normalmente, para elas, lhes é suficiente atuar como membros de um pequeno grupo. Quando alguém não tem a oportunidade adequada para levar a cabo o processo de poder, as consequências são (dependendo de cada indivíduo e do modo pelo qual o processo de poder seja perturbado) o tédio, a desmoralização, baixa autoestima, sentimentos de inferioridade, derrotismo, depressão, ansiedade, sentimentos de culpa, frustração, hostilidade, maus-tratos ao cônjuge e aos filhos, hedonismo insaciável, comportamento sexual anormal, transtornos do sono, transtornos da alimentação, etc.


Causas dos problemas sociais
Quaisquer dos sintomas antes elencados podem ocorrer em qualquer sociedade, porém estão presentes na sociedade moderna numa escala massiva. Não somos os primeiros a dizer que, hoje em dia, o mundo parece estar a enlouquecer. Isso não é o normal nas sociedades humanas. Parece que, em geral, o tipo de problemas que enumeramos no parágrafo anterior era muito menos comum entre os povos primitivos que o é na sociedade moderna. Nesse texto atribuem-se os problemas sociais e psicológicos da sociedade moderna ao fato de tal sociedade cobrar das pessoas que vivam submetidas a condições radicalmente diferentes daquelas nas quais a espécie humana evoluiu, e que se comportem de modo a entrar em conflito com os padrões de comportamento que a espécie humana desenvolveu enquanto vivia naquelas condições originais. Do que se leu até aqui, pode-se deduzir claramente que no texto considera-se a falta de oportunidades para se experimentar apropriadamente o processo de poder como a mais importante das condições anormais às quais a sociedade moderna submete as pessoas. Mas essa condição não é a única. Entre as condições anormais presentes na sociedade industrial moderna, cabe se destacar a excessiva densidade populacional, o isolamento do homem em relação à Natureza, a desmedida rapidez das mudanças sociais e a decomposição de comunidades naturais de pequena escala, tais como a grande família, a aldeia ou a tribo.


Perturbações do processo de poder na sociedade moderna
O homem moderno tem de satisfazer sua necessidade de experimentar o processo de poder principalmente através da persecução de necessidades criadas pela indústria da publicidade e do marketing, assim como através da realização de atividades substitutivas. Parece mesmo que, para muita gente, talvez para a maioria das pessoas, essas formas artificiais do processo de poder são insuficientes. Um tema que aparece repetidamente nos escritos dos críticos sociais da segunda metade século XX é a sensação de falta de objetivos vitais que aflige muita gente na sociedade moderna. Algo bem amplamente espalhado na sociedade moderna é a busca pela “autorrealização”. Mas pensamos que, para a maioria das pessoas, uma atividade cujo objetivo principal seja a “realização pessoal” (ou seja, uma atividade substitutiva) não produzirá uma satisfação completa. Assim é que o processo de poder encontra-se perturbado em nossa sociedade, devido à carência de metas autênticas e da falta de autonomia nas tentativas de se alcançar as metas. A sociedade moderna, em certos aspectos, é extremamente permissiva. No que se refere àqueles assuntos que sejam irrelevantes para o funcionamento do sistema, geralmente, nós podemos fazer o que quisermos. Podemos crer na religião que mais nos agrade. Podemos ter relações com quem nos agradar. Podemos fazer qualquer coisa que nos agrade – toda vez e sempre que isso não seja importante. Mas no que diz respeito aos assuntos importantes, o sistema tende, paulatinamente, a regular cada vez mais o nosso comportamento.


Como algumas pessoas se adaptam
Nem todo mundo sofre de problemas psicológicos na sociedade tecnoindustrial. Algumas pessoas, inclusive, parecem estar bastante satisfeitas com essa sociedade tal como ela é. Discutiremos agora algumas das razões pelas quais as pessoas diferem tanto em suas reações frente à sociedade moderna.

Os motivos dos cientistas
A investigação científica e tecnológica fornece os exemplos mais importantes de atividades substitutivas. Alguns cientistas afirmam que seus motivos para investigar são a “curiosidade” ou um desejo de “beneficiar a humanidade”. Mas é fácil observar que nenhum desses, para a maioria dos cientistas, é o motivo principal. No que diz respeito à “curiosidade”, essa aproximação é simplesmente absurda. A maioria dos cientistas trabalha em problemas tão especializados que nunca seriam objeto de uma curiosidade normal. A explicação baseada no “bem da humanidade” não é muito melhor. Alguns trabalhos científicos não têm qualquer relação imaginável com o bem-estar da espécie humana – a maior parte da arqueologia ou a linguística comparada, por exemplo. Algumas outras áreas da ciência implicam evidentes perigos. A ciência é uma atividade substitutiva por que os cientistas trabalham principalmente pela satisfação que têm com a realização de seu próprio trabalho. Claro está, não é algo tão simples assim. Há outros motivos que jogam um importante papel para muitos cientistas. O dinheiro e o status, por exemplo.

A natureza da liberdade
O texto pretende mostrar que não se pode reformar a sociedade tecnoindustrial de um modo a impedi-la de reduzir progressivamente a esfera da liberdade humana. Mas, dado que “liberdade” é uma palavra que pode ser interpretada de bem diversos modos, primeiro se procura esclarecer que tipo de liberdade é a de que se está tratando.

Alguns princípios acerca da história
O texto apresenta certos princípios não como leis invioláveis, porém sim como regras gerais, ou como guias para o pensamento, os quais ajudem a não nos deixar levar por ideias ingênuas acerca do futuro da sociedade. Tais princípios, com toda constância, deveriam ser trazidos à mente e, toda vez em que se chegasse a uma conclusão que com eles conflitasse, haveria que se reexaminar cuidadosamente o que se está pensando, e manter essa conclusão somente se ainda houvesse boas e sólidas razões para isso.

A sociedade tecnoindustrial não pode ser reformada
Os princípios anteriores facilitam a exposição da dificuldade e da pouca probabilidade de se reformar o sistema industrial, de um modo tal que se evitasse que este seguisse estreitando o âmbito de nossa liberdade.

A restrição da liberdade é inevitável na sociedade industrial
Como havia sido antes explicado, o homem moderno está enleado num emaranhado de normas e regulações, e seu destino depende das ações de pessoas que estão distantes dele – em cujas decisões, portanto, não pode influir. Isso não é algo acidental, nem um resultado da arbitrariedade de burocratas arrogantes. É necessário e inevitável, em qualquer sociedade tecnologicamente avançada. O sistema tem de regular estritamente o comportamento humano para poder funcionar.

As partes “más” da tecnologia não podem ser separadas das partes “boas”
Outra razão pela qual a sociedade industrial não pode ser reformada – de um modo a favorecer a liberdade – é que a tecnologia moderna é um sistema integrado, no qual cada parte depende de todas as demais. Não é possível se desfazer das partes “más” da tecnologia e se manter só as partes “boas”.

A tecnologia é uma tendência social mais poderosa que o desejo de liberdade
Não é possível estabelecer um equilíbrio duradouro entre tecnologia e liberdade, já que a tecnologia é, de longe, uma força social mais poderosa, e que, continuamente, restringe a liberdade mediante sucessivas negociações e acordos.

Os mais simples problemas sociais têm-se demonstrado insolúveis
Se alguém ainda imaginar que seria possível reformar-se o sistema de um modo tal que a liberdade ficasse protegida da tecnologia, deveria considerar o quão fútil e, na maioria dos casos, ineficientemente nossa sociedade vem agindo diante de outros problemas sociais que são muito mais simples e manejáveis. Entre outros casos, o sistema tem fracassado nos intentos de conter a degradação ambiental, a corrupção política, o tráfico de drogas ou a violência doméstica.

A revolução é mais fácil que a reforma
Os autores esperam que o leitor se tenha convencido de que o sistema não pode ser reformado de tal modo que se façam compatíveis a liberdade e a tecnologia. O único caminho possível passaria por cima do sistema tecnoindustrial, em sua totalidade. Isso implica uma revolução; não necessariamente um levante armado, porém sim, isto certamente, uma transformação radical e fundamental na natureza da sociedade.

O controle do comportamento humano
Desde o início da civilização, as sociedades civilizadas tiveram de pressionar os seres humanos para manterem o funcionamento do organismo social. As formas dessa pressão variam muito, de uma sociedade para outra. N o passado, a natureza humana colocava determinados limites para o desenvolvimento das sociedades. As pessoas podiam ser pressionadas só até certo ponto, e não mais além. Mas, hoje em dia, isso pode estar mudando, já que a tecnologia moderna está desenvolvendo formas de modificar os seres humanos (drogas psicoativas, tecnologias de vigilância, técnicas educacionais, engenharia genética, etc.). A sociedade industrial parece estar entrando em um período de graves dificuldades, em parte causadas por problemas do comportamento humano e em parte por problemas econômicos e ambientais. E uma quantidade considerável dos problemas econômicos e ambientais do sistema é o resultado do modo como se comportam os seres humanos. Desse modo, o sistema será OBRIGADO a usar todos os meios práticos que estejam ao seu alcance para controlar o comportamento humano.

A humanidade numa encruzilhada
O sistema, atualmente, está travando uma batalha desesperada para superar certos problemas que ameaçam sua sobrevivência, entre os quais os mais importantes são os problemas do comportamento humano. Se o sistema chega a adquirir suficiente controle sobre o comportamento humano, rápido o bastante, provavelmente sobreviverá. Em caso contrário, irá cair.

O sofrimento humano
É cruel esforçar-se para favorecer o colapso do sistema? Há que se sopesar – ou a luta e a morte, ou a perda da liberdade e da dignidade. Para muitos de nós, a liberdade e a dignidade são mais importantes que a longevidade ou que a evitação da dor física. Ademais, todos haveremos de morrer, antes ou depois, e pode até ser melhor morrer lutando pela sobrevivência, ou por uma causa, que viver uma longa vida – porém vazia e sem sentido. Tampouco é certo que a sobrevivência do sistema possa nos fazer esperar menos sofrimento que o provocado por seu colapso. O sistema já tem causado – e vai seguir causando – um imenso sofrimento em todos os lugares. Supunha-se que a Revolução Industrial faria desaparecer a pobreza, que faria com que todo mundo fosse feliz, etc. As consequências reais têm sido bem distintas. Os tecnófilos são irremediavelmente ingênuos (ou se autoiludem) em sua forma de entender os problemas sociais. Não se apercebem (ou optam pela ignorância) do fato que quando as grandes mudanças, inclusive as aparentemente benéficas, são levadas a termo numa sociedade, essas mudanças, por sua vez, desencadeiam uma longa sequência de outras novas mudanças, a maior parte das quais são impossíveis de se prever. O resultado é a desestabilização da sociedade. Desse modo, é muito provável que, com seus intentos de acabar com a pobreza e a doença, produzir personalidades dóceis e felizes e coisas desse gênero, os tecnófilos acabem por criar sistemas sociais que serão terrivelmente conflituosos, mais até que o próprio sistema atual.


O futuro
Suponhamos que a sociedade industrial chegue a sobreviver às próximas décadas e que, finalmente, chegue a desvencilhar-se de seus defeitos, de modo que o sistema funcione, então, sem entraves. Que tipo de sistema seria esse? Consideraremos algumas possibilidades diversas.

A estratégia
Os tecnófilos estão nos arrastando, a todos, em sua corrida totalmente imprudente para o desconhecido. Muitas pessoas entendem parcialmente o que o progresso tecnológico está ocasionando; entretanto, tomam diante dele uma atitude passiva, pois consideram que isso é algo de inevitável. Mas nesse texto isso não é considerado como algo inevitável. Nele se entende que isso é algo que pode ser detido, e oferece então algumas indicações de como se atuar para detê-lo.

Os dois tipos de tecnologia
Uma possível objeção que se poderia opor à revolução que propomos é que esta proposta estaria condenada ao fracasso, posto que (segundo se afirma), ao longo da história, a tecnologia teria sempre avançado, nunca teria sofrido retrocessos – pelo que, pois, uma regressão tecnológica seria impossível. Mas tal afirmação é falsa. No texto, se distingue dois tipos de tecnologia, às quais chamam de tecnologia de pequena escala e de tecnologia dependente de grandes organizações. A tecnologia dependente das organizações de grande escala passa SIM a regredir quando a organização social da qual depende se desagrega.

O perigo do esquerdismo
Devido à sua necessidade de rebelar-se e de pertencer a um movimento, os esquerdistas ou outras pessoas de tipos psicológicos assemelhados, frequentemente, sentem-se atraídos por movimentos rebeldes ou ativistas cujas metas e membros, de início, não seriam esquerdistas. A influência exercida por esses tipos de tendência esquerdista poderá facilmente transformar em esquerdista um movimento qualquer que, inicialmente, não fosse esquerdista – de modo que as metas esquerdistas acabam por substituir ou desfigurar as metas originais do movimento. Para evitar que isso se suceda, um movimento que exalte a Natureza e se oponha à tecnologia deve adotar um posicionamento resolutamente antiesquerdista, e deve evitar toda colaboração com esquerdistas. O esquerdismo, em longo prazo, resulta ser incompatível com a Natureza selvagem, com a liberdade humana e com a eliminação da tecnologia moderna. O esquerdismo é uma tendência totalitária. Sempre que o esquerdismo ascende a uma posição de poder, tende a invadir até o último recanto de privacidade e a fazer que todo o pensamento fique encerrado dentro dos moldes esquerdistas.


Nota final
Ao longo do artigo, são feitas afirmações imprecisas e afirmações que merecem ser interpretadas com todo tipo de considerações e reservas – e algumas dessas afirmações talvez sejam totalmente falsas. A falta de informação suficiente e a necessidade de brevidade tornam impossível formular tais asserções de um modo mais preciso ou acrescentar todas as explicações necessárias. E, certamente, numa discussão desse tipo, há que se confiar consideravelmente na capacidade de juízo intuitivo, e isso, por vezes, pode ser um erro. Desse modo, não pretendemos que neste escrito se expresse mais que uma rudimentar aproximação no sentido da verdade. De qualquer modo, seus autores estão razoavelmente seguros de que os traços gerais do quadro que acabaram por pintar são bastante acertados.